Crônicas de Bebês em Presença — Guto II
Updated: Jul 30

A fina linha entre cuidar e invadir
Quando afastar-se também é permanecer em relação
Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.
Esta crônica dá continuidade a Guto I — A urgência do susto, em que acompanhamos um bebê que, antes de poder aprender, precisava deixar de cuidar do ambiente para poder existir com mais segurança.
Quando sou procurada por pais com seu bebê, em busca da minha ajuda, inicialmente tenho o cuidado de manter uma certa distância entre um atendimento e outro. Desse modo, pretendo dar tempo para que uma linguagem nova possa se instalar e, quem sabe, promover certa intimidade do casal com o bebê, do bebê com a mãe, do pai com o bebê, do pai com a mãe, e da mulher com o marido.
É uma intimidade familiar que a minha presença frequente, muito intensa no início, pode atrapalhar um pouco.
Explico: acredito que a aproximação do corpo do bebê pode passar também pela aproximação dos próprios corpos dos pais. Nesse sentido, muitas orientações podem surgir nesse ambiente mais íntimo, que pode se sentir constrangido diante de uma autoridade, real ou imaginária.
Assim, estimulo que fiquem um pouco entre eles. Caso seja necessário, vou aproximando uma sessão da outra e me aproximando da família.
No caso do Guto, sentimos, a mãe e eu, a necessidade de uma intervenção mais constante.
Quem leu a primeira crônica já conhece Guto: o menininho que, segundo a preocupação da mãe, precisava da minha ajuda para andar.
Até então, vínhamos sustentando sessões uma vez por mês, ao longo dos últimos quatro meses. Nesse período, oriento a mãe sobre como enrolar o corpo do bebê, como aproximar a bacia da cabeça, sempre usando uma boneca de pano.
Insisto em não colocar o menino em pé e afirmo a necessidade de desacelerar as exigências para não atropelar seu desenvolvimento. O processo de desenvolvimento já está ativado.
Passamos a sessões semanais e, inicialmente, meu trabalho direto com Guto se restringe aos olhos e ao olhar. Estabeleço um limite para o trânsito do meu corpo e do meu olhar.
Ele me olha e, dependendo de como olha, eu desvio os olhos, permanecendo em silêncio. Não somos amigos, pois eu ainda ofereço risco.
É importante salientar que eu me mantenho na relação quando desvio o olhar. Desviar o olhar, nesse momento, é me conectar com ele respeitando os limites da experiência que seu corpo pode absorver por ora.
Além disso, uso outros sentidos para me conectar. Sinto o olhar dele em mim e só quando ele pode deixar de me olhar é que olho para ele. Quando ele pode deixar de me olhar, entendo que sua sensação de risco diminuiu.
Ofereço brinquedos que dou para a mãe, e a mãe entrega a ele. Afasto-me fisicamente quando ele me olha assustado.
Quando olho para ele, e parece possível, sustento o olhar no tempo que ele sustenta. São ações pequenas para o universo adulto, mas, para um bebê assustado, podem ser muito tranquilizadoras.
Não estou “largando” Guto. Estou interagindo com ele a partir daquilo que ele sustenta.
A diferença pode ser grande entre abandonar e afastar-se.
A diferença pode ser muito pequena entre cuidar e invadir.
Assim, ao longo desses meses, ele já pode brincar e já pega brinquedos da minha mão.
Seu corpo, que apresentava uma frente larga e um perfil fino, já apresenta mudanças.
A cabeça de Guto está mais redonda, com mais profundidade; a vista frontal do seu corpo afinou e alongou; visto de perfil, apresenta um corpo mais largo.
Estamos indo bem.
Simultaneamente, vou indicando esses cuidados e as transformações da forma corporal para a mãe.
Ela percebe e se anima, porém continua querendo saber quais são as ações que devem ser feitas para que a criança se desenvolva de modo a ficar igual às outras crianças.
Sua decisão a respeito da frequência das sessões difere da minha. Meu eixo é me aproximar e interagir
com a criança. O dela é que o filho aprenda a andar.
Quero saber do pai: o que ele acha do desenvolvimento da criança? Ela diz que ele concorda que Guto tem que andar, mas logo segue para outros assuntos.
Não reconheço a presença do pai, e isso é tão forte no ambiente que, de fato, esqueço a participação de um pai na cena.
Já a mãe tem uma figura marcante. Tem um corpo fino, magro, reto, firme. Faz pilates, ginástica localizada, trabalha na empresa do pai. Tem uma relação próxima com a família de origem, que mora no interior de São Paulo.
A única vez que trouxe alguém da família para a terapia, trouxe sua mãe, avó de Guto. Outra mulher parecida com a mãe de Guto.
Percebo que as exigências de resultado continuam e insisto que é preciso desacelerar e esperar o tempo da criança.
Reafirmo os ganhos diante da transformação da forma corporal e reconhecemos, juntas, como a criança está mais sociável com os adultos e as crianças com quem se relaciona com mais frequência.
Guto também apresenta melhores condições para o rolamento e para a posição sentada.
Havia sugerido o uso de uma caixa de papelão para colocar a criança sentada: uma caixa do tamanho do menino, dentro da qual ele pudesse estar contido e, ao mesmo tempo, exercitando a posição sentada.
A mãe faz tudo o que está ao seu alcance para ajudar no desenvolvimento do filho.
Parece-me que, quase sempre, em busca de “bons” resultados.
A busca constante de resultados me preocupa.
Denise de Castro
| Nesta crônica, o ambiente de cuidado aparece como manejo da distância, do olhar e da presença. Afastar-se, aqui, não é abandonar. É permanecer em relação sem invadir o campo que o corpo do bebê ainda não consegue sustentar.
Entre o desejo de ajudar e a pressa por resultados, o cuidado precisa reconhecer a fina linha entre oferecer apoio e atropelar o tempo da experiência.
O que muda quando afastar-se também pode ser uma forma de presença?
| Leia também: Guto III — Olhar e enxergar.







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