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Crônicas de Bebês em Presença — João II

  • Aug 13
  • 4 min read

Updated: Aug 18

Imagem criada por IA, sem correspondência com criança real
Imagem criada por IA, sem correspondência com criança real

O conflito inerente

Quando escolher ambientes também é cuidar


Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.



Esta crônica dá continuidade a João I — O intervalo entre o quase existente e o existente, em que começamos a acompanhar João, um menininho de 1 ano e 7 meses que chega ao atendimento acompanhado de um diagnóstico de TEA, mas também de uma potência corporal viva, forte exploradora.


Vocês já conhecem João: o menininho que estamos acompanhando em seu caminho de desenvolvimento. Estamos às voltas com questões comuns aos pais de qualquer criança.


Qual a melhor forma e quais as ações necessárias para tratar de assuntos como escola, cuidador doméstico, terapias, atividades extracurriculares, ausência e presença dos pais em casa?


Como seguir acompanhando tantos assuntos importantes?


Como gerenciar os conflitos que aparecem quando precisamos disparar ações para dar conta do que importa?


Para os pais de João, pode parecer que essa urgência e essa quantidade de assuntos são motivadas apenas pela presença do diagnóstico.


Tento deixar claro que qualquer pai e qualquer mãe cuidadosos se deparam com uma realidade conflitante diante de decisões importantes na vida de um filho. Quero mostrar que eles não estão sozinhos.


As famílias, em geral, se ocupam dessas tarefas com expectativa, dúvidas e agitação. Essa é uma das funções dos pais de bebês e crianças: conduzir e definir os ambientes nos quais seus filhos vão buscar o necessário para o próprio desenvolvimento; ambientes nos quais seus filhos vão agir e viver as ações dos outros; ambientes de influência para uma vida social.


O desenvolvimento de um indivíduo depende, em parte, de um suplemento ambiental regular. “Pegamos” no mundo externo o que precisamos para o mundo interno, processando esses elementos e transformando em mais vida.


De modo simples, pegamos um alimento fora, comemos, processamos e geramos mais tecidos que garantem o processo da vida em nós. É assim que seguimos fazendo, de modo complexo, com as emoções, com os sentimentos, com as ações.


Seguimos pegando, processando e nos transformando na relação com o ambiente externo.


Nesses momentos, fico muito atenta para não tomar uma direção apressadamente, desconsiderando os vários caminhos possíveis diante de um pai e de uma mãe, ambos singulares. João tem um pai e uma mãe ativos nas decisões referentes ao seu desenvolvimento.


Tento acomodar o conflito inerente a duas pessoas com seus corpos, suas histórias, seus comportamentos, suas emoções e suas fantasias em relação ao desenvolvimento do filho.


Nesse caso, tudo isso acompanhado de um diagnóstico que pode preocupar, orientar, limitar ou reorganizar drasticamente o campo de cuidado.


Percebam: digo que fico atenta para não tomar uma direção mesmo antes de indicar essa direção. Sigo atenta para não estabelecer uma direção eu comigo mesma, permanecendo um tempo em meu próprio estado de conflito.


Pretendo deixar minha escuta acessível à realidade daquela família. Claro que tenho referências e modos para ensinar e conduzir, mas tento acalmar o meu mundo interno e acompanhar os corpos em seus limites, as emoções em suas confusões, as possibilidades e impossibilidades que constituem a vida real de qualquer pessoa.


Vou processando as falas, acompanhando com perguntas e escuta, ativando as dúvidas. Não é tarefa fácil desacelerar a instalação das verdades estando imersa em um ambiente de urgências. Escolho discutir primeiro, e com calma, o tema escola.


João está em uma escola bilíngue, e passo a escutar qual ambiente possível é gerado por essa escola. Vamos reconhecendo a necessidade do desenvolvimento da linguagem e, nesse caso, as chances de tropeços frente ao aprendizado de duas línguas distintas: o português e o inglês.


João não está falando e apresenta um atraso em relação ao tempo de desenvolvimento verbal frequente em crianças da sua idade. Vamos reconhecendo que a escola não favorece experiências descoladas dos resultados.


Nesse momento, talvez fosse mais importante gerar ambientes que privilegiassem os aspectos motores e as ações livres do que atividades educativas muito próximas da educação formal.


Além disso, fica clara a priorização do ensino formal diante da realidade espacial: a escola não oferece um espaço físico amplo para os corpos em ação. Vamos desativando o sonho de ter um filho que domina o inglês e o português. E vamos dando lugar para a inteligência cinestésica de João.


Ele apresenta um avanço em relação ao tempo de desenvolvimento motor frequente em crianças da sua idade. Convido os pais a acompanhar a alegria de João nas brincadeiras e vou apresentando os saberes que são ampliados a partir das experiências concretas.


Noções de espaço e tempo. Acima e abaixo. Dentro e fora. Tridimensionalidade. Lateralidade. Pesado e leve.


A possibilidade de desenvolver uma infinidade de saberes cognitivos experimentados e sedimentados a partir da brincadeira, das ações das várias partes de um corpo muito jovem e potente para ficar parado.


Além disso, João tem se mostrado uma criança que eu chamo de “muscular” em seu corpinho largo, denso e divertido, expressando na forma a necessidade de explorar, a partir de todos os sentidos, os

ambientes dos quais faz parte.


Vamos mudar de escola.


Denise de Castro





| Nesta crônica, o ambiente de cuidado aparece como campo de decisões. Escola, linguagem, corpo, diagnóstico, família, expectativas e futuro entram em jogo ao mesmo tempo.


Escolher um ambiente não é apenas resolver uma questão prática. É reconhecer que cada ambiente ativa certas experiências e dificulta outras. Entre a urgência de decidir e a necessidade de escutar a criança real, o cuidado precisa desacelerar verdades prontas e abrir espaço para o corpo em ação.


O que muda quando uma escolha de escola deixa de ser apenas uma decisão pedagógica e passa a ser também uma decisão corporal?



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