Crônicas de Bebês em Presença — João III
- Aug 18
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Updated: Aug 22

Quem precisa estar perto?
Quando cuidar não significa desaparecer de si
Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.
Esta crônica dá continuidade a João I — O intervalo entre o quase existente e o existente e João II — O conflito inerente, em que começamos a acompanhar João, uma criança pequena que chega ao atendimento acompanhada de um diagnóstico de TEA, mas também de uma potência corporal viva, forte, exploradora e cinestésica.
Vocês já conhecem João: um menininho cada dia mais lindo que estamos acompanhando em seu caminho de desenvolvimento. Continuamos às voltas com questões comuns aos pais de qualquer criança.
Qual a melhor forma e quais as ações necessárias para tratar de assuntos como escola, cuidador doméstico, terapias, atividades extracurriculares, ausência e presença dos pais em casa?
O pai e a mãe de João estão tentando se posicionar sobre um tema muito difícil.
Será o caso de um deles deixar de trabalhar para ficar em casa com o menininho?
Será a mãe a pessoa indicada para essa tarefa?
Será a mãe a pessoa mais indicada a deixar de trabalhar para acompanhar João em casa e em suas atividades?
Esclareço que os dois são excelentes profissionais. Ambos formados em medicina e atuando com muito vigor: produzindo, aprendendo, influenciando e ganhando dinheiro. São dois profissionais realizados, que gostam do que fazem.
Vocês podem imaginar o conflito que eu vivo por aqui?
Estou entre várias orientações que cercam situações nas quais querer e não querer, entender e não entender, poder e não poder se misturam, gerando indefinições, ambientes de passividade ou agressividade, achatando os acontecimentos em uma tentativa heroica das pessoas de darem conta de viver esses mesmos acontecimentos.
Precisamos ir devagar.
O pai, com muita delicadeza e dúvida, se posiciona. Ele tem uma pergunta. E coloca a questão em voz alta:
— Precisamos saber qual o valor e a premência, para o desenvolvimento de João, de ter a mãe por perto.
Ele segue dizendo que já conversaram e concluíram, juntos, que a mãe seria a pessoa mais indicada para deixar de trabalhar. Isso em função da condição profissional dela em relação à dele.
Parece que o pai está mais estabilizado profissionalmente, e deixar de trabalhar prejudicaria muito a família.
Desse modo, o possível deslocamento de posição recai sobre a mãe.
Meu primeiro movimento foi na direção da mãe. Quero saber o que significa, para ela, deixar de trabalhar. Ela afirma que não tem interesse em deixar o trabalho. Gosta do que faz, sente-se feliz.
Mas entende que, se isso for importante e necessário para João, está disposta a fazê-lo.
Fico ouvindo e olhando para ela. Quero saber, através dela, o que tem por dentro. Qual é a expressão do seu rosto? Nada.
Palavras e deveres.
Meu segundo movimento foi na direção de ambos. Quero saber em que muda, para eles, a presença da mãe em casa, o tempo todo ao lado de João.
Vejam, cá estou eu, novamente, vivendo o meu conflito. Sou mulher, tenho dois filhos e adoro meu trabalho, no qual influencio e sou influenciada constantemente.
Trabalhando, me desenvolvo em várias camadas da minha existência. Imersa no meu ambiente de trabalho, confirmo o sentido da minha existência.
Como assim uma mulher bem-sucedida e feliz profissionalmente vai parar de trabalhar para ficar em casa?
Sim, por outro lado, compreendo que o pai tem uma condição profissional muito estável e suficiente para sustentar a família.
Desse modo, a permanência do pai no trabalho orienta João para atividades nas quais estão envolvidos vários profissionais e suas ferramentas de cuidado, que podem contribuir com seu desenvolvimento.
Reconheço também que, com a mãe em casa, ela poderia ajustar e acompanhar não só João, mas também esses profissionais que vão cuidar dele.
Simultaneamente, me envolvo com João. Ele precisa de boa atenção, geradora de um ambiente favorável para suas conquistas.
Ainda me pergunto: será necessário que a mãe fique o tempo todo às voltas com ele? Aqui, acho uma entrada possível.
Vou questionando a agenda de João: escola todas as manhãs, terapia alfacorporal, fonoaudiologia, natação. Ações necessárias para acompanhar uma criança em risco de desenvolvimento.
Quantas horas o menininho fica fora de casa?
De fato, João fica um bom tempo fora de casa envolvido com suas próprias atividades. Nesse sentido, seria possível a mãe trabalhar meio período? Parece que não. Seu local de trabalho não comporta essa escolha. Ou fica o dia inteiro, ou não pode trabalhar ali.
Porém, pode sair da rotina de trabalho, vez ou outra, sem complicação.
E a babá?
E a família?
Vamos reconhecendo a presença de avós cuidadosos e disponíveis. Tios queridos e presentes. Esta mãe, e esta família, têm estímulo, têm apoio.
Ofereço-me para receber a babá. Posso ensinar várias brincadeiras e ações que vão beneficiar o desenvolvimento de João.
A mudança de escola já está se mostrando acertada, e João adora ir para a escola. Combinamos que a presença dos pais nas sessões é indispensável. Assim, uma vez vem o pai, outra vez vem a mãe, outra a babá, e também o papai e a mamãe juntos.
A vovó está convidada.
A mãe resolve que vai tentar continuar trabalhando e cuidando de seu menininho. Afinal, concordamos: é isso que ela vem fazendo tão bem. O pai está de acordo.
Denise de Castro
| Nesta crônica, o ambiente de cuidado aparece como manejo de uma pergunta delicada: quem precisa estar perto para que uma criança se desenvolva? A presença da mãe importa. A presença do pai importa. A presença da babá, da escola, da família e dos profissionais também pode importar. Mas cuidar de uma criança não precisa significar o desaparecimento de uma mulher, de um pai ou de uma rede inteira em nome de uma única solução.
Entre o dever, o medo e o amor, o cuidado precisa reconhecer a criança real sem apagar os adultos que sustentam seu ambiente.
O que muda quando cuidar deixa de ser sacrificar-se sozinho e passa a ser organizar uma rede viva ao redor da criança?
| Leia antes: João I — O intervalo entre o quase existente e o existente. Quando o diagnóstico chega antes da criança e João II — O conflito inerente. Quando escolher ambientes também é cuidar.







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