Crônicas de Bebês em Presença — João I
- Aug 10
- 4 min read
Updated: Aug 13

O intervalo entre o quase existente e o existente
Quando o diagnóstico chega antes da criança
Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.
Ao olhar e ativar, em mim, a percepção da presença de um bebê/criança, me pego emocionada com a noção de potência e fragilidade do “quase existente” que envolve a vida de um bebê.
Quase existente diante da fragilidade que cerca o bebê em seu corpo tão jovem, dependente dos adultos que cuidam.
Quase existente diante da potência de desenvolvimento, que é condição do bebê frente aos jogos de forças próprios de um corpo tão jovem e das intenções dos adultos cuidadores.
Eu me emociono com essa condição de quase existência que, de algum modo, acompanha toda existência.
Sinto que é nesse intervalo frágil entre o que existe e o que quase existe que quero interferir. É nesse intervalo potente entre o que existe e o que quase existe que preciso ajudar a definir contornos.
Também quero acompanhar e interferir nesse intervalo entre o que quase existe e o que ainda não existe.
Este é o caso do papai e da mamãe de João, que chegam ao consultório carregando um fardo pesado: o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista — TEA.
João tem 1 ano e 7 meses. Os pais estão apreensivos, atentos, disponíveis.
Vamos, juntos, sentir, pensar e atuar para descobrir como podemos ajudar João em seu desenvolvimento próprio.
Pretendo partir da fronteira, daquilo que une, da zona que pertence simultaneamente aos domínios da potência de desenvolvimento e da dificuldade de desenvolvimento. Uma criança acompanhada de um diagnóstico, mas também um corpo em plena potência de desenvolvimento.
Um diagnóstico pode engessar. Pode também indicar caminhos. Vai depender, em grande parte, de como o ambiente se organiza em torno dele.
Vou conversando com os pais e sigo atenta, captando informações e me atualizando. “Escuto” as palavras, os gestos, as condições para a interação. Percebo que o pai se dirige pelo caminho da informação. Lê e pesquisa tudo o que pode. Nesse sentido, apesar de todo o cuidado, corre o risco de atropelar a criança com as informações e de se afastar, sem perceber, da relação com o filho real.
A mãe, ao contrário, parece desimplicada do diagnóstico. Não acredita inteiramente no risco de desenvolvimento que o filho está correndo, segue tentando amenizar os fatos e se desafetar. Desse modo, também sem consciência disso, pode se afastar da relação com o filho real.
Pai e mãe estão tentando cuidar. Mas, nesse momento, cada um se aproxima de uma criança diferente. E nenhuma dessas crianças é João em sua complexidade. De certo modo, João está sozinho.
Sigo, com o papai e a mamãe, pelo caminho no qual vamos encontrar e estabelecer o filho real.
João entra na sala de atendimento e vai explorando tudo. Não tem medo de nada. Não tem desconfiança de nada. Descola dos pais sem nenhum constrangimento.
Será que isso é só bom?
Já anda bem. Noto que tem bom desenvolvimento motor. Sobe, desce, corre, explora. Tem um corpo forte, largo, firme, denso. Vou apostar nessa potência motora para me conectar com ele. É um menininho guerreiro.
Deixo que explore a sala e sigo acompanhando todos os seus movimentos. Percebo que ele repete o que chamo de sequência: uma série de movimentos que acontecem no espaço, no tempo e no modo de forma semelhante e diferente.
Semelhantes por serem os mesmos movimentos. Diferentes por serem refeitos com mais presença de si, entre outras variações. Não vejo a repetição de ações sempre como patológica. Prefiro esperar para entender melhor como ele se relaciona com a própria repetição.
Entro na brincadeira e parto para fazer a sequência com ele. Ando igual, subo igual, desço igual, sigo o caminho. Ele gostou e já se ligou em mim. Ótimo.
Começamos nosso diálogo.
Eu estou na sala. Passo na frente dele e ele me segue agora. Repito a sequência e, sendo eu “o mestre” — vocês conhecem a brincadeira siga o mestre? — acrescento uma nova posição e uma nova passagem.
Alegria: ele me imita no novo. Estamos mesmo brincando juntos.
Cada vez que acrescento uma novidade na sequência que aprendi com ele, lá está ele me acompanhando.
Vejam: ele me vê.
As brincadeiras motoras, neste momento, podem ser o canal transmissor do desenvolvimento desse menininho. Preciso ser visível para ele e, assim, ser capaz de ajudar no seu desenvolvimento. Não estou falando de exercícios específicos de equilíbrio, marcha ou força. Estou falando de brincadeiras acompanhadas que, ora partem do repertório dele, ora partem do meu repertório. Brincadeiras nas quais, ora sou estimulada, ora estimulo.
Estou falando da minha presença como canal, como conexão, como olhar. Estou falando da presença dele real, e não da criança ideal, conhecida ou esperada.
Sigo me deixando estimular e estimulando. Sem essa condição, fica muito difícil ensinar e ser ensinada, de fato.
Mostro a presença do menininho lindo para os pais. Eles também me acompanham. Estamos apostando no grupo formado: eu, o papai, a mamãe e João.
Logo vou conhecer a cuidadora diária. Os pais trabalham e precisam da ajuda de outra pessoa na lida cotidiana com o menininho.
Sinto um ambiente favorável.
Ainda é pouco frequente que bebês e crianças incluídos no grupo com TEA cheguem ao consultório para um trabalho corporal como esse. Apesar dos progressos que podemos alcançar, tratamentos que acompanham a criança em sua realidade viva, corporal e relacional ainda nem sempre entram nas indicações de cuidado.
Seguimos por aqui.
Denise de Castro
| Nesta crônica, o ambiente de cuidado começa no esforço de encontrar a criança real, antes que o diagnóstico, o medo, a informação ou a negação ocupem todo o campo. João chega acompanhado de um diagnóstico, mas também chega com um corpo vivo, forte, explorador, capaz de repetir, variar, imitar, brincar e convocar o outro para uma relação.
Entre o quase existente e o existente, o cuidado pergunta: como ajudar uma criança a aparecer sem reduzi-la ao que já se espera dela?
O que muda quando deixamos de procurar apenas o diagnóstico e começamos a encontrar o filho real?







Comments