Crônicas de Bebês em Presença — João IV
- Aug 20
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Simples e Complexo
Quando a presença real vale mais que a experiência ideal
Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.
Esta crônica dá continuidade ao percurso de João, acompanhando um novo elemento do ambiente de cuidado: a presença da cuidadora e a diferença entre aquilo que esperamos de alguém e aquilo que essa pessoa realmente pode sustentar no encontro com uma criança.
João já está com 2 anos.
Iniciamos nossos encontros em frequência quinzenal e passamos para encontros semanais. As primeiras sessões aconteceram com a presença do papai, da mamãe, de João e comigo.
Nessas três últimas sessões, estou conhecendo a cuidadora de João. Ela é uma pessoa simples. Os pais de João avaliam a troca da cuidadora. Pensam em contratar alguém que tenha completado mais etapas do ensino formal. Acreditam que a pessoa atual, por ter baixa escolaridade, por vezes, não teria condição de estimular e desafiar João como eles imaginam necessário.
Esta é uma questão que geralmente inquieta muitos pais: uma cuidadora considerada “simples” favoreceria, ou não, as conquistas cognitivas de uma criança?
Duvido que essa resposta possa ser dada apenas a partir da escolaridade. O que será que significa ser uma pessoa simples?
É sempre bom tentarmos rever o significado e o sentido das palavras. Talvez, nesse momento, possamos perceber que não sabemos bem a diversidade de sentidos que uma palavra pode ter nos diferentes ambientes nos quais é usada. Uma pessoa simples pode ser mais transparente ao dizer e fazer as coisas de um modo menos polido, não necessariamente menos cuidadoso. Simples pode, também, revelar um comportamento rústico e o uso incorreto da língua portuguesa.
A palavra simples pode, no entanto, caracterizar uma pessoa capaz de ficar um bom tempo ao lado de uma criança sem fazer pressão, sem atropelar, sem ativar outros interesses que não os interesses próprios da criança.
O fato de não ter completado as etapas escolares não impede alguém de ser capaz de aprender, receber orientação e seguir uma direção de cuidado quando encontra alguém que sabe ensinar. Pode acompanhar uma pessoa com curiosidade, com tempo interno, com amorosidade. Este é o caso da babá de João. Ela gosta dele de um jeito muito bom. Acha-o lindo.
Tem a lentidão nas ações necessária para esperar que ele processe as experiências. Quer aprender para ajudar no desenvolvimento dele. Sabe escutar. E, muito importante, aceita meus convites para brincarmos juntos.
Ela não sabe sobre o autismo e não enxerga o risco de desenvolvimento do menininho. Ao contrário, acha João muito esperto e gosta de estar com ele. Ela não pode ser uma professora do ensino infantil. Mas pode, sim, ser a cuidadora de João. Ela não pode cuidar sozinha do menininho. Mas, com a presença marcante dos pais, pode ser uma boa colaboradora. Estou ajudando por aqui.
Quando as palavras, por seu uso estático, perdem vida nos ambientes de convivência, nos distanciamos dos corpos e das informações presentes, afetando a potência da interação e da capacidade de transformação. Estou apostando na interação com a cuidadora de João.
Percebo, durante os meus acompanhamentos, seja das famílias, seja dos profissionais que oriento, uma tendência a permanecerem atentos à expectativa de presença, em vez de ativarem uma presença real. Nesse sentido, saliento que, ao escrever as crônicas, uso determinados recortes dos acontecimentos.
Escrevo sobre o papel, que é bidimensional.
Já os acontecimentos reais são vividos em sua trama complexa, preenchida de experiências tridimensionais e simultâneas.
Na tentativa de garantir que compreendam a realidade simultânea dos acontecimentos em sua complexidade, afirmo que cada sessão é acompanhada por mim desativando urgências e, simultaneamente, ativando as presenças reais das pessoas que participam do ambiente terapêutico.
Podemos dizer que a captação dos recortes simplifica a complexidade das experiências. Dito isso, tento estabelecer uma conexão viva entre o simples e o complexo. Um pulso que gera mais vida, resultando em desenvolvimento humano.
É a partir da soma de vários recortes simples que posso contornar a complexidade da experiência real, aproximando o real do ideal, diferentemente de colar um no outro.
Este é o desafio da terapeuta durante o exercício da terapia Alfacorporal: aguardar as informações em tempo real e arriscar-se no acontecimento em tempo real.
João tem sido capaz de imitar, repetir e aprender. Mas como diferenciar a repetição simples, ação comum a qualquer criança, da repetição complexa, frequentemente presente como mania nas crianças incluídas no TEA?
Tenho o desafio de interagir com ele. E também é importante que ele possa interagir com suas próprias partes.
Entendo que a exploração da repetição das ações preenchidas por aquilo que move a própria criança pode favorecer seu desenvolvimento e sua aprendizagem. Desse modo, estamos tentando perceber quando João repete como mania e quando repete movido pelo interesse em apreender algo. Quando fica sozinho envolvido consigo mesmo e quando fica isolado na mania.
Quando os pais chegaram até mim, entendiam que o menininho não podia repetir ações nem brincar sozinho. Estou desafiando a possibilidade de viver várias situações e identificar essa questão da repetição e do isolamento. Precisamos — papai, mamãe, cuidadora e eu — agir com calma, perceber as situações, manter uma espera ativa.
Espera ativa, como conceito da Técnica de Alfabetização Corporal®, consiste em saber esperar enquanto se mantém um campo de possibilidades. Uma espera que determina um estado próprio, intencional, de espera e participação calculadas, para seguir conquistando algo de interesse comum. Estou tentando interagir conectando sempre as minhas intenções com as possibilidades de João.
Acredito que a cuidadora pode interagir com ele usando a espera ativa, embora seja difícil explicar o conceito apenas em palavras. Desse modo, a partir dessa ferramenta de trabalho, João, de certa forma, pode nos ensinar a cuidar dele.
Denise de Castro
| Nesta crônica, o ambiente de cuidado aparece na diferença entre a presença esperada e a presença real. A cuidadora talvez não corresponda ao ideal de formação imaginado pelos pais, mas sustenta algo precioso: tempo, lentidão, escuta, amorosidade e disponibilidade para aprender com João.
O simples, aqui, não se opõe ao complexo. Pode ser justamente a condição para que a complexidade da experiência encontre passagem. Entre repetição, aprendizagem e espera ativa, o cuidado pergunta: o que uma criança nos ensina quando paramos de decidir rápido demais quem sabe cuidar dela?
O que muda quando deixamos de olhar apenas para a formação ideal e começamos a reconhecer a presença real que sustenta uma experiência?







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