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Crônicas de Bebês em Presença — Guto I

Jul 16
4 min read

Updated: Jul 27

Imagem criada por IA, sem correspondência com criança real.
Imagem criada por IA, sem correspondência com criança real.


A urgência do susto

Quando existir vem antes de aprender


Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.



Este é o relato de um dia de atendimento de um menino de quase 1 ano, tendo como recorte a forma do corpo-ambiente em seu uso de si.


Guto entra no meu consultório acompanhado da mãe. O pai não está junto. Ele fará 1 ano em breve. A mãe me procura porque o filho ainda não anda e não mostra sinais de que andará em breve. Essa é a queixa.


Quando pensamos na idade de um bebê, é importante lembrar que, em um mês, muita coisa pode mudar na realidade viva e potente de um corpo em plena vitalidade. Guto está no colo da mãe. Não posso olhar para ele que ele chora.


A mãe está agitada, fala rápido, seu corpo está muito firme, o pescoço rígido, os olhos atentos. Segue relatando dados do nascimento, da amamentação e do desenvolvimento motor.


Guto teve uma disfunção passageira no nascimento, que exigiu exames e uso de medicamento logo no início da vida. Atualmente, o medicamento foi retirado, e o pediatra que o acompanha não vê problemas importantes. Orientou que os pais esperassem o desenvolvimento neuromotor seguir no seu tempo.


A mãe, entretanto, sente-se insegura com o desenvolvimento do filho e me procura por indicação de uma amiga que conhece meu trabalho, não por orientação médica.


O pai não está presente na fala da mãe.


Guto não aceita minha aproximação, sequer visual. Chora assustado e permanece atento a todos os meus gestos e movimentos. Tenho que descobrir modos de olhar para ele sem que ele me veja olhando.


Seu corpo tem muita frente: é mais largo em vista frontal e mais achatado em vista lateral. Corpos com muita frente e pouca profundidade podem acompanhar ambientes ativados na defesa de uma possível invasão do próprio território corporal.


É um corpo duro, que não aceita bem o enrolamento, não aproxima bacia e cabeça.


Sentado, permanece rígido, sem mover-se para a frente ou para os lados, impedindo os gestos que antecedem o engatinhar.


Não me aproximo da criança. Deixo que ele fique colado à mãe e quase não trocamos olhares. Quando insisto em olhar, ao olhar-me, ele já chora. Não aguenta manter nem o contato visual.


Uma criança totalmente assustada não pode aprender, pois precisa cuidar do ambiente. Precisa garantir sua sobrevivência.


Se eu mudo de lugar, lá está ele me vigiando.


Vou apresentando esse estado corporal para a mãe. Interessa que ela entenda a linguagem corporal da criança.


Converso com ela tentando compreender o que sente a respeito do quadro médico, do desenvolvimento motor, dos afetos diante dos acontecimentos, da relação com a família e com o marido.


A mãe sente-se pressionada pelas pessoas em geral. Todos “exigem” que a criança dê sinais de que vai engatinhar e andar logo. Fazem comparações, dizem que está atrasado.


Ela está assustada, e vou tentando garantir um novo estado para a mãe. Minha tarefa é a de desmanchar o susto, primeiro nela.


A forma corporal da mãe, dura e esticada, não favorece encaixes. Se ela desmanchar o susto no próprio corpo, poderá estabelecer um diálogo mais tranquilo com a criança.


O corpo e suas respostas musculares antecedem a consciência do uso de si, de como afeta e é afetado durante os acontecimentos.


Vamos percebendo que o risco de doenças graves foi descartado, e tento promover um ambiente seguro para que ela possa compartilhar seus medos.


Reconheço e compartilho com a mãe as conquistas do filho diante das narrativas dela e dos comentários do pediatra. Vamos, juntas, aceitando que ele está bem e pode se desenvolver acompanhando as outras crianças.


Vou sinalizando como ela tem sido boa mãe e cuidado muito bem do seu filho, sempre construindo uma narrativa baseada nos acontecimentos que ela traz, validando suas percepções que, de fato, são atentas e cuidadosas.


Por meio de uma boneca de pano, mostro o enrolamento que desejo que faça, em casa, com o menino.


Insisto que devemos parar de assustá-lo e que os momentos de enrolamento devem ser prazerosos, não um exercício que busca resultados ou exige uma solução.


Também, para evitar o aumento do susto, não faço os movimentos e massagens na própria criança. Enfatizo que as manobras devem ser feitas lentamente, carinhosamente, olho no olho.


A busca de resultados atravessa a mãe e a criança, dificultando a presença e deformando a experiência viva.


Por hoje, chega!

Denise de Castro





| Nesta crônica, o ambiente de cuidado começa antes de qualquer intervenção direta no bebê: no manejo do olhar, na escuta do susto, na atenção ao corpo da mãe e no cuidado para que o desenvolvimento não seja atropelado pela busca de resultados.


Entre o susto e a possibilidade de aprender, Guto precisava deixar de vigiar o ambiente. Antes de andar, precisava poder existir com mais segurança no próprio corpo.


O que acontece quando um corpo precisa cuidar do ambiente antes de poder viver a própria experiência?



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