Crônicas de Bebês em Presença — Guto IV
- Aug 6
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Só, solidão e solitude
Quando o resultado aparece antes do processo terminar
Os nomes e alguns elementos de identificação foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas.
Esta crônica dá continuidade ao percurso de Guto, acompanhando um momento delicado: quando o resultado esperado começa a aparecer, mas o processo ainda pede presença.
Sinto que não estou conseguindo, de fato, interagir com a mãe de Guto. Ela ajuda, não falta, confia no trabalho. Mas, ainda assim, sinto certa distância. Uma distância que recusa um reconhecimento, impede um compartilhamento e não deixa que algo do acontecimento seja vivido em conjunto.
Distanciar-se e aproximar-se são ações importantes nas relações.
O que estou questionando, entretanto, não é a distância em si. É a ausência. É a não presença que retira as pessoas do acontecimento e, nesse sentido, impede que elas possam, de fato, influenciar o que está acontecendo.
Guto está andando. Ora se apoia nos móveis, ora anda de mãos dadas com outras pessoas. Tem os joelhos hiperestendidos, e percebo, nessa parte do corpo, que a busca por resultados ainda está instalada.
Ele está frequentando a escolinha e, segundo a escola, interage com professores e amigos. É uma criança bonita, saudável, inteligente.
Do ponto de vista do desenvolvimento motor, Guto está se desenvolvendo bem.
O sistema familiar, porém, mantém a busca por resultados, promovendo um ambiente constante de insuficiência do menino e reafirmando um passado que permanece no presente por meio de ações e palavras repetidas.
Todo passado é presente quando as ações de lá permanecem aqui. Nesse sentido, podemos favorecer um presente que transforma quando adotamos ações e palavras novas, fluxos de vida canalizados em novas formas de relação.
Transformar é uma condição determinada pela vida biológica.
O corpo jovem de Guto experimenta mudanças constantes.
Percebo que fui dando conta das urgências.
Agora, gostaria de seguir atendendo as brechas: a ausência do pai, o corpo esticado da mãe, os joelhos hiperestendidos da criança, a perspectiva de uma identidade hegemônica, as relações das partes corporais entre si, as narrativas que integram emoções e ações.
Vou reconhecendo que, para a mãe, estamos finalizando.
Guto está quase andando sozinho. Logo, não vai mais precisar de mim.
Tento sustentar um pouco mais a minha presença na vida do menininho.
Percebo os sinais de que ela, a mãe, acredita que já não precisa mais de mim no seu modo de afirmar as melhoras de Guto. Ela me fala de determinadas conquistas dele que retiram a importância da minha participação na continuação do processo. Nesse momento, vou me sentindo descartável.
Certamente, passo pela vida das pessoas como presença objetiva. Mas, frequentemente, fico enquanto presença subjetiva.
Converso sobre questões de bastidores no desenvolvimento mais amplo da criança. Consigo, acredito, que ela compreenda a importância de seguir com a terapia Alfacorporal um pouco mais.
Sigo me perguntando se a presença de Guto e suas necessidades me absorveram e se acabei deixando a mãe sozinha. Tentei ajudar a mãe, também, mas era empurrada para a urgência com a criança. Tentei saber do pai de Guto como companheiro, mas fui chamada para a necessidade de fazer Guto andar. Convidei a mãe para participar da terapia Alfacorporal em grupo, mas, segundo ela, já estava praticando exercícios. Gerei ambientes seguros nos quais ela pôde chorar acompanhada.
Guto está prestes a andar. Faz bem as passagens de uma posição para outra. Sobe e desce sozinho.
É importante que a criança possa fazer as passagens de posições para ter autonomia nos deslocamentos.
Muitos pais estimulam que a criança saiba andar sem antes favorecer a condição de passagem entre posturas. Nesse caso, fica cindida a condição para o deslocamento e a condição para mover-se por vontade própria.
A criança depende dos adultos para chegar a uma determinada posição e, só então, poder se deslocar para onde deseja. Ilusão de poder.
Atendo Guto às terças.
Na segunda-feira, recebo um recado feliz da mãe: ele está andando sozinho.
Pronto.
Não precisa continuar o trabalho comigo. Minha participação está finalizada. Segundo a mãe, fiz um excelente trabalho.
Denise de Castro
| Nesta crônica, o ambiente de cuidado aparece diante de uma situação paradoxal: o resultado esperado chegou, mas o processo ainda não parecia terminado. Guto anda, mas ainda há brechas no campo: o corpo da mãe, a ausência do pai, os joelhos hiperestendidos, a pressa por concluir, as passagens que sustentam a autonomia.
Entre só, solidão e solitude, o cuidado pergunta o que ainda precisa de presença quando todos acreditam que o objetivo já foi alcançado.
O que acontece quando o resultado aparece antes de podermos acompanhar o que ainda está em processo?







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