Crônicas de Bebê em Presença: EXISTIR MÃE

September 20, 2018

 

 

O corpo de um bebê possui aparelhos e sistemas em formação que podem estar íntegros e, na sua idade jovem, seguir seu desenvolvimento. É, porém, por meio das interações familiares e sociais, acompanhadas das linguagens corporais e gestuais próprias do bebê, que tais aparelhos e sistemas corporais poderão passar de solo fértil para solo frutífero, resultando em desenvolvimento constante do bebê. Quero dizer que, apesar de íntegro, o corpo como base para uma existência, pode se desenvolver de modo mais e menos eficiente. Quero enfatizar que a fonte primordial para que o desenvolvimento humano emerja da própria base corporal e alcance maior eficiência são as relações em potencial, são as articulações manifestas entre as experiências de si acompanhadas das experiências com o outro e do outro. Nesse sentido, experimentar existir é a 1ª questão importante para refletirmos sobre o relato a seguir.

Tuca chega ao consultório acompanhada do papai e da mamãe; ela tem 6 meses de vida. Uma menininha linda, esperta, presente. Seu corpo é forte e sua expressão vibrante. Ocupa a sala, a mamãe, o papai, a minha atenção, não sobra espaço para mais ninguém. Como pode um bebê de 6 meses ocupar tanto espaço?

A mãe está deprimida e o pai fala pouco. Com a chegada do bebê real, estão sem saber o que fazer. Pensavam que ia ser tudo tão mais fácil! Que eles seriam ótimos pais e não precisariam de ajuda externa, apenas os dois. Devo dizer que é muito comum receber pais desiludidos com a realidade dura diante dos cuidados de que um bebê necessita. São pais que não sabem, de fato, que não nascemos pais, e sim vamos nos tornando pais. Percebo que, apesar de muito triste, a mãe tem vitalidade diante do choro próprio. Quero dizer que, quando ela pode chorar, pode se vitalizar também. Acredita, no entanto, que, ao chorar, está “maltratando” a filha e se esforça para manter uma alegria que não existe; se não existe não pode, portanto, ser um canal para a transmissão de forças. O canal de transmissão de forças por aqui é a tristeza. Vejam, tenho por aqui uma mulher que não está podendo existir como mãe. A existência como mãe é atravessada pela idealização dessa mãe e, no caso, afasta a mãe real dos acontecimentos.

 

O pai, ainda sem experiência e com seus modos mais silenciosos, não consegue sustentar a tristeza da jovem mãe, retroalimentando a solidão e a fragilidade da mamãe da Tuca.

A Tuca vai bem, está dormindo, está crescendo, está sorrindo. Nesse sentido, vejo que os pais estão dando conta, nem tudo vai mal. Porém, percebo que Tuca, de certa forma, está mandando no pedaço. Os pais dizem que ela “exige” ficar em pé sempre que está “brava”. Os pais sentem que, quando colocam a menininha em pé, ela sossega, assim, fazem isso sempre. Se a deixam em pé ela se acalma. Sentem, no entanto, que ela está exigindo cada vez mais, ficando brava cada vez mais, agitando-se cada vez mais.

 
Tuca tem o corpo largo e denso, é forte. Está maior que a maioria das crianças da sua idade, é uma menininha grande. Posso pegá-la no colo, me aceita bem, logo nossos corpos são banhados pela atração. Com a Tuca no colo, posso perceber seu corpo esticado, não quer saber de se enrolar e logo fica “brava” comigo quando tento aproximar cabeça e bacia. Quer esticar e pronto! Não me assusto, mas, como estou chegando agora, não é interessante começar uma amizade desagradando tanto a minha futura amiguinha. Deixo seu corpo um pouco mais solto, mas ainda assim levemente enrolado. Estou tentando regular a posição de enrolada para mais e para menos enrolada, nunca esticada. Tuca é bem forte mesmo! Essa característica pode ser muito boa se os adultos da relação a ajudarem na contenção de si. Devolvo a menininha para a mamãe.

Vamos começar ativando um corpo mais macio e com condição de aproximar bacia e cabeça. Tento explicar aos pais que eles terão que sustentar a ativação dessa posição comigo. Vamos evitar colocar a Tuca em pé e ponto. Vamos pedir que os avós façam isso também. Precisamos ensinar para a Tuca que ela é só um bebê e ela vai se acalmar. Tuca vai experimentar a sua existência de bebê se os adultos da relação puderem contornar melhor o tamanho da menininha, a partir do corpo objetivo assim como do corpo subjetivo. Bebês precisam dos adultos para viver, bebês existem a partir dos cuidados de quem cuida, bebês não podem existir sem seu cuidador. Essa verdade, frequentemente, assusta os pais e pode gerar “medo do bebê”, acelerando um determinado crescimento, desativando um determinado apego precocemente, desenhando um limite frágil.

 

Simultaneamente, vamos ativar o lugar de mãe e pai. Vamos, os três adultos, estimular a mãe e o pai a ocuparem os seus lugares.


Vamos entender que filhos/pais estão presentes/ausentes dos acontecimentos. Vamos atualizar as presenças.

 

Estamos apenas começando!

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