Profundidade e Superfície

TUCA I

Alguns leitores estão me pedindo para aprofundar o significado e o sentido do procedimento nomeado de enrolamento. Tenho citado nas Crônicas a necessidade que um bebê, principalmente nos seus 1ºs meses de vida, tem de ativar a prática corporal na qual a cabeça e a bacia se aproximam; os pés, as mãos e a boca se tocam; as partes corporais em si se relacionam.

Tenho insistido, também, para desacelerar a expectativa da conquista da posição em pé e da marcha. Nesse sentido, é necessário assentar essa urgência presente no universo adulto em ensinar coisas demais para o bebê. Essa necessidade em estimular e colocar o bebê em pé, seja em face de um desconforto do bebê, seja apenas estimulando a marcha pode significar busca de aprendizado. Os adultos estão olhando para a importância de estimular o bebê para o desenvolvimento, porém não reconhecem um outro sentido, em que medida a posição em pé afeta a posição da bacia. Qual a relevância dessa informação? Experimentar a bacia em suas posições promove o reconhecimento da profundidade e da superfície do corpo. Saliento que não estou fazendo uma analogia ou usando uma metáfora. O corpo de um adulto, quando sensível, e o corpo macio do bebê podem experimentar os contornos mais profundos e mais superficiais da própria forma corporal, entre outras, a partir da percepção da posição da própria bacia. Em cada posição, antevertida e retrovertida, independente do que se quer, o corpo experimenta sensações vividas na forma a partir da transmissão de forças que percorrem esse corpo vivo, conectando as partes, traduzindo a unidade corporal. Experiências apressadas podem confundir superfície e profundidade corporal, atravessando, de modo nocivo o desenvolvimento dos vários corpos em um. Experiências apressadas podem confundir o bebê que não pode delimitar bem sua superfície e sua profundidade, gerando mais desconforto e mais exigência em si mesmo. Ficar em pé anterioriza a bacia, e isso não é um problema, desde que aconteça acompanhando o desenvolvimento dos tecidos que vão dar sustentação a esta anteriorização. Não é o caso do bebê.

Tuca é um bebê forte do ponto de vista da superfície corporal, com camadas de tecidos musculares e esqueléticos vibrantes. Nessa configuração genética expressa-se fortemente pelas ações, apresentando seus músculos expressivos para o mundo; explora e ocupa os espaços. Acordada, mostra-se um bebê em ação; interage e conhece objetos e pessoas. Para dormir precisa “desligar-se” e está exigindo malabarismos dos pais, pois não consegue alcançar/ceder ao “desligamento”. O início do processo de sono está alterado; os adultos precisam fazer várias ações para que ela possa se acalmar e alcançar a profundidade de si necessária para dormir em paz.

O pai sai para passear com a Tuca no carrinho, a mãe fica horas no quarto com ela. Ambos, pai e mãe, percebem que ela está com sono, mas não consegue ceder ao sono. Nem dorme e nem fica bem acordada, assustando os pais, que não sabem o que fazer e, ao mesmo tempo, temem ter de ficar de castigo esperando que ela durma, enfim. O susto dos pais retroalimenta a superfície corporal do bebê, ativando as ações da menininha. É importante identificar o susto dos pais nas expressões faciais, nos ombros e pescoço tensos, nas mãos sem curvas, no tom de voz áspero, na ausência, no olhar, no medo de a Tuca não dormir nunca.

Os corpos estão sem saber COMO fazer para acomodar a hora do aprofundamento e do afastamento das superfícies corporais.

O meu trabalho orienta-se, com os pais, para o questionamento e compartilhamento de narrativas sobre o desconforto deles. Vamos localizando as formas corporais de ambos que permanecem em cena antes e durante o horário de colocar a menininha para dormir. Eles vão identificando a si mesmos, um pouco antes e durante o ato de fazer a Tuca dormir e descobrem que eles também permanecem em ação. Em uma determinada ação, seja superficial, seja profunda. O pai não se aquieta e segue andando com o carrinho, a mãe não se aquieta, segue agitada em seus pensamentos, buscando soluções. Desse modo, não estão ensinando a Tuca a se acalmar, estão agindo por ela.

O meu trabalho orienta-se, com a Tuca, para a intensificação do enrolamento. O pedido, feito anteriormente por mim, para evitar colocar a Tuca em pé já apresenta resultados. Ela está brigando menos para ser mantida levemente enrolada. Os pais associam essa novidade da forma corporal com determinada suavidade nos modos da menininha.

A mãe continua deprimida, mas já pode segurar a filha com firmeza oferecendo contenção e limite para o corpo da menininha. O “medo da filha” ainda está presente. Acompanho a mãe, mas preciso enfatizar a prática corporal que vai promover transformações no corpo da filha e da mãe, primeiro. Aos poucos, vou acompanhar melhor as questões subjetivas que estou enxergando: “a filha presente na mãe” e “a mãe presente na filha”.

Proponho que, ao anoitecer, o papai ou a mamãe coloque a Tuca entre almofadas e, sentado na sua frente, permaneça olho no olho com ela. Brinque com as mãos, com os pés e com a boca da Tuca, sempre frente a frente e, ela, enrolada entre as almofadas, mantendo cabeça e bacia mais elevadas que o tronco. Desenhando no espaço um corpo berço, um corpo colo, um corpo do útero. Os movimentos, inicialmente, mais vigorosos, rápidos e divertidos, vão dando lugar para a suavidade, lentidão e recolhimento. Desse modo, as ações seguem envolvendo os corpos em um estado de quietude e tranquilidade. Além disso, o pai ou a mãe pode acompanhar a filha se acalmando, contrário a controlar o sono da menininha.

Atentem que tanto filha como os pais não estão fazendo uma coisa só, não estão aplicando uma técnica, e, sim, estão compondo com várias ações: interação, relação em si, posições, toques, orientações, ritmos, emoções.

Vamos ensinar o caminho da tranquilidade para o corpo da Tuca.
Ela vai poder usar sua própria sabedoria em acalmar-se ao longo de toda a vida, com ou sem papai e mamãe por perto.

Denise De Castro

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