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Crônicas de Bebê em Presença: NOEL I


Lugar de Mãe, Lugar de Pai, Lugar de Filho! Recebo um casal com seu filho, Noel. O pai chegou a mim pela indicação da terapia Alfacorporal por parte de um amigo que conhece o meu trabalho. Precisa de ajuda porque o seu bebê não dorme, e essa situação está maltratando muito o casal. Os pais se revezam na dura tarefa de fazer o bebê dormir. Noel tanto demora para pegar no sono quanto segue, ao longo da noite, acordando diversas vezes. Ele está com 1 ano. Chega ressabiado e me seguindo com o olhar. Sempre me impressiona o olhar do bebê e da criança que chega nos ambientes contando tanto sobre eles. Noel gruda no pai, e não é fácil manter qualquer conversa entre os adultos sem que o menininho chacoalhe o ambiente, expressando e imprimindo, em nós, o seu desconforto. Busca o corpo e a atenção do pai.

Ele nasceu com problemas respiratórios e apresentou, para os pais, a realidade de um bebê que nasce com problema. Do nascimento para cá, os problemas respiratórios cessaram, mas a dificuldade para dormir passou a ser o problema de Noel. Segundo o relato dos pais, eles já viveram situação na qual o menininho chorava horas sem parar. Ninguém conseguia descontinuar esse choro. Um choro de sofrimento. A mãe se queixa que o lugar de mãe está invertido e que o pai ocupa este lugar. Ela também reclama a falta de ficar com o marido, com o amigo, com o amor dela. O pai se espreme no diálogo com a mãe. Espreme-se de fato; o corpo se aperta, a voz abaixa se comparada quando se dirige a mim. Quero dizer que a fala comigo acontece a partir de um tom de voz, de uma posição da cabeça, de um tônus muscular, e com a mulher, de outro jeito. Isso chama a minha atenção. Existe um “cuidado” para dialogar com a mulher/mãe, na minha frente, pelo menos. Um “cuidado” que me desperta algo que ainda não sei o que é. O Noel só existe incomodando; não sinto a força da atração entre nós. Sinto uma facilidade em ficar às voltas com os pais, eles me atraem. Só não é possível dirigir a minha atenção apenas para os adultos por que o menininho reclama, chora, atravessa. Esse bebê não está conseguindo “reinar” nessa casa! Os pais fazem o que devem fazer, loucura isso, fazem muito! Cuidam e não se ocupam de si mesmos. Não deixam o bebê com ninguém. Atendem as necessidades básicas do menininho. É um bebê bem cuidado na dimensão da saúde, mas falta uma condição extremamente importante para a sobrevivência de qualquer bebê, uma condição herdada: a capacidade de atrair. Sabe o bebê que só de estar ali já nos faz rir? Não conheci o Noel aos 3, 4 ou 8 meses, não sei como era. Estou relatando minha percepção atualizada. Perceber isso me assusta, e quase entro no campo com a família. Percebo que passo a dar atenção para o menininho, me obrigo a tentar encontrar um ponto de atração, como se fosse errado e feio da minha parte seguir desinteressada por ele. Pronto, agora ele ganhou a minha atenção, porém uma atenção forçada e não espontânea. Eu me regulo. Fico mais atenta e cuido da situação me afastando de todos eles; deixo os acontecimentos seguirem sem nenhuma ação minha, fico só observando a cena. Como eles estão escravizados e infelizes? Para quê tanta atenção com as birrinhas do filho? E o Noel, do seu modo, disputa a atenção com todos. Não deixa nada acontecer sem que ele faça parte. À medida que a pressão vai aumentando no ambiente, o menininho busca mais e mais o pai.

Olho para a mãe e vou enxergando uma mulher esvaziada e incapaz de conseguir a atenção do filho e do marido. Muito, muito solitária! Nesse momento, ela desiste. E é, também, nesse momento que resolvo ficar com ela. Mostro para ela e para o marido como ela está sozinha. Acolho a sua dor de relativo abandono. Ela chora e o marido se posiciona ao lado dela. O menininho vai junto com o pai e se aproxima da mãe, sente a tristeza da mãe. Pode chegar mais perto da mãe. Eles ficam juntos! Começamos!

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