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Crônicas de Bebês em Presença: GUTO I


A URGÊNCIA DO SUSTO

Relato de um dia de atendimento de um menino de quase 1 ano, tendo como recorte a forma do corpo/ambiente em seu uso de si. Informações sobre a criança e família foram alteradas.

Guto entra no meu consultório acompanhado da mamãe, o papai não está junto. Ele vai fazer 1 ano em breve. A mãe me procura com seu filho que ainda não anda e não mostra sinais de que andará em breve, essa é a queixa. Quando pensamos na idade de um bebê interessa incluir que, em 1 mês, muita coisa pode mudar na realidade viva e potente de um corpo em plena vitalidade. Guto está no colo da mãe. Não posso olhar para ele que ele chora. A mãe está agitada, fala rápido, seu corpo está muito firme, pescoço rígido, olhos atentos, sua presença é marcada por um corpo em prontidão. De certa forma, fica difícil interagir com ela.

Ela segue relatando dados do nascimento, amamentação e desenvolvimento motor, uma falação que deixa pouco espaço para os afetos. Guto teve uma disfunção passageira no nascimento que exigiu exames e uso de medicamento logo no início da vida. Atualmente, o medicamento foi retirado e o pediatra que acompanha o Guto não vê mais problemas importantes e orientou que os pais esperassem que o desenvolvimento neuromotor seguisse no tempo. Ela sente-se insegura com o desenvolvimento do filho e me procura com indicação de uma amiga que conhece meu trabalho e não por orientação médica. O pai não está presente na fala da mãe.

Guto não aceita minha aproximação, sequer visual; chora assustado e permanece atento a todos os meus gestos e movimentos. A interação com ele está totalmente comprometida diante da presença de um corpo de susto, um corpo que vigia o ambiente.

Tenho que descobrir modos de olhar para ele sem que ele me veja olhando.

Paulo Thiago

Tem um corpo com muita frente: é mais largo em vista frontal e mais achatado em vista lateral. Corpos com muita frente e pouca profundidade podem acompanhar ambientes ativados na defesa de uma possível invasão do próprio território corporal.

Corpo duro que não aceita bem um enrolamento, não aproxima bacia e cabeça. Sentado, permanece duro, sem mover-se para a frente ou lados, impedindo os gestos que antecedem o engatinhar.

Não me aproximo da criança, deixo que ele fique colado à mãe e quase não trocamos olhares. Quando insisto em olhar, ao olhar-me, já chora, ele não aguenta manter nem o contato visual. Uma criança totalmente assustada que não pode aprender, pois tem que cuidar do ambiente, tem que garantir sua sobrevivência. Se eu mudo de lugar, lá está ele me vigiando.

Vou apresentando esse estado corporal para a mãe, interessa que ela entenda a linguagem corporal da criança. Vou conversando com a mãe tentando entender o que sente a respeito do quadro médico, do desenvolvimento motor, dos afetos diante dos acontecimentos, da relação com a família, com o marido. A mãe sente-se pressionada pelas pessoas em geral. Todos “exigem” que a criança dê sinais de que vai engatinhar e andar logo, fazem comparações, diz em que está atrasado.

Ela está assustada e vou tentando garantir um novo estado para a mãe. Minha tarefa é a de desmanchar o susto, primeiro da mãe. A forma corporal da mãe, dura e esticada, não favorece “encaixes”. Se ela desmanchar o susto no próprio corpo vai estabelecer um melhor e mais tranquilo diálogo com a criança. O corpo e suas respostas musculares antecedem a consciência do uso de si, de como afeta e é afetada durante os acontecimentos.

Vamos percebendo que o risco de doenças graves foram descartadas e tento promover um ambiente seguro para que ela possa compartilhar seus medos.

Reconheço e compartilho com a mãe as conquistas do filho diante das narrativas dela e dos comentários do pediatra. Vamos, juntas, aceitando que ele está bem e pode se desenvolver acompanhando as outras crianças. Vou sinalizando como tem sido boa mãe e cuidado muito bem do seu filho, sempre construindo uma narrativa baseando-me nos acontecimentos trazidos pela mãe, validando suas percepções que, de fato, são atentas e cuidadosas. ​​​​​​​​​​​​

Por meio de uma boneca de pano, mostro o enrolamento que desejo que faça, em casa, com o menino. Insisto que devemos parar de assustar o menininho, e, que os momentos de enrolamento devem ser prazerosos, e não um exercício que busca resultados, que exige uma solução. Também, para evitar o aumento do susto, não faço os movimentos e massagens na própria criança.

Enfatizo que as manobras devem ser feitas lentamente, carinhosamente, olho no olho. A busca de resultados atravessa a mãe e a criança, dificultando a presença e deformando a experiência viva.

Por hoje, chega!

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