SEMELHANTES E DIFERENTES

June 14, 2018

DINÂMICA DA VIDA

 

Os processos vivos são constituídos pela composição dinâmica despertada, entre partes de um mesmo corpo e entre uma pessoa e outras pessoas e entre vários objetos, nos ambientes e seus campos de práticas. Composição dinâmica é aqui entendida como um reconhecimento e acomodação de ações, pensamentos e sentimentos que acompanham as alternâncias provocadas pela variação, transmissão, adaptação e regulagem de forças vivas que alteram os estados físicos e afetivos. Durante as experiências em viver a circulação de forças vitais constitutivas dos ambientes vivos, cada pessoa vai processar esses ambientes a partir de composições possíveis, não idealizadas; são, portanto, composições únicas que cada corpo é capaz de exercer nos ambientes.

Ilustração: Rafael Terpins.

Livro: "O Método Corpo Intenção. Uma terapia corporal da prática à teoria"

 

Para acompanhar a reflexão sobre a dinâmica da vida vou compartilhar, nas próximas postagens do blog, uma parte do meu trabalho desenvolvido com famílias e bebês. Ao me dedicar em escrever as “Crônicas de Bebês em Presença”, vai ficando cada vez mais marcada em mim a certeza de que uma pessoa não tem como se desenvolver sendo igual a qualquer outra pessoa. Digo marcada em mim porque o ato de escrever sobre a experiência do atendimento de pais e filhos organiza e define uma capacidade em enxergar as várias dimensões de verdades daquela família. Compartilhar as realidades de cada família que me procura confirma as várias dimensões de verdades presentes nos ambientes de convivência. O ato de escrever está apoiado, nesse caso, nas experiências do encontro com outros corpos, exigindo composições dinâmicas como um elemento necessário para acessar os desafios trazidos por cada família.

 

Não se pode ser igual no sentido do caminho trilhado no percurso do próprio desenvolvimento, do começo ao fim. Assim, por exemplo, cada casa tem a sua distribuição dos móveis, e essa distribuição influencia as brincadeiras, determina o que a criança pode ou não experimentar, no que pode ou não mexer, ditando, de certo modo, o desenvolvimento motor e a construção do pensamento do bebê em desenvolvimento. Os modos de se mover dos pais, para a vida, influenciam os avanços da criança no mundo e os recolhimentos para si mesma, ora afirmando, ora negando os interesses da criança.

 

As crenças da família nuclear e expandida influenciam os ambientes com os quais a criança pode interagir, determinando o certo e o errado. Desse modo, um pequeno agente em seu corpo jovem segue desenvolvendo um pequeno sujeito imerso em seu ambiente e suas condições favoráveis e desfavoráveis.

 

O ambiente e seus estados, ora hostis, ora seguros, são determinantes nos primeiros anos de vida do vivente. Assim, o bebê vai se desenvolvendo apoiando-se nesses ambientes, interno e externo a si mesmo, praticando e processando aquilo que é possível. O bebê vai, lentamente, afirmando o seu destino em tornar-se um adulto.

 

O que estou dizendo é que os bebês nascem essencialmente inacabados e se mantém incapazes por longo tempo. Nesse sentido, precisam que os adultos dispensem cuidados constantes e prolongados na manutenção da sua vida. Se e quando os adultos cuidadores cumprem sua função de cuidar, de um jeito ou de outro, o bebê segue se desenvolvendo, e esse desenvolvimento o levará para a vida adulta. O fato é que para estar e ser adulto, vamos nos deparar com a complexidade inerente do desenvolvimento da espécie humana. Essa complexidade inerente constitui a diferença de cada um em seu processo de desenvolvimento, para o bem e para o mal.

 

Desse modo, a verdade que compartilho com vocês é a de que não podemos ser iguais no sentido das combinações e arranjos que cada um faz para seguir vivendo. Nesse sentido, outra verdade me toca: somos semelhantes no que cerca a condição humana de viver os estados impermanentes, próprios, do outro e dos ambientes, e a determinação da transitoriedade da vida. Somos semelhantes e diferentes!

 

 Exposição Antony Gormley SP, 2012

 

Vivemos o constante, que é a mudança e receamos a mudança, que é constante! Essa realidade me acompanha, antes e durante, ao integrar um ambiente familiar. Somos semelhantes diante da complexidade inerente ao reconhecer a existência dos corpos físico, comportamental, emocional e cognitivo que vão se apresentando na cena terapêutica. Esses vários corpos em um acompanham o drama próprio, ora afirmando, ora negando a participação no drama, gerando dilemas.

 

Acompanhando as famílias, posso me aproximar dos dramas e suas narrativas, lindas histórias contadas pelos próprios personagens. Lindas, no sentido do preenchimento vivo da dor, da alegria, do medo, da tristeza, da raiva.

 

 

Emoções que constituem os estados impermanentes do humano em nós, e que são acompanhadas de ações, também impermanentes. Cercar essa realidade impermanente é um trabalho a ser feito juntos, uma co-operação de ações, sentimentos e pensamentos que é praticada entre a família e eu, e entre eles. Nada vai se transformar sem ações novas. É necessário viver o novo e estranho em cada um dos participantes dos campos de práticas formados no encontro dos corpos.

 

Vou compartilhar com vocês pequenos relatos de experiências reais e, em cada relato, destacando um recorte condutor de determinada reflexão. Os dramas em suas riquezas que, quando compartilhados, intensificam a sensação de estar vivo. Quando compartilhados, considerando o estado de vida real do momento, mesmo na tristeza e mesmo no medo, favorecem mais vida, vitalizam.

 

O meu desejo, ao escrever as “Crônicas de Bebês em Presença”, é contribuir para a vitalização das pessoas a partir do reconhecimento das variações dos estados próprios e dos outros; para o desenvolvimento da consciência da presença de várias verdades coexistindo no mesmo ambiente; para a desconstrução da polarização do certo OU errado das referências externas; para a construção da presença que faz o presente.

 

Todas essas reflexões podem despertar as pessoas para a presença pulsátil da realidade impermanente do vivente, realidade regida pelos ciclos vida-morte-vida! O pulso e sua variação permanente entendido como o dispositivo gerador de mais vida em cada corpo.

 

Vale uma reflexão!

 

 

 

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