Comportamento e Corpo.

NANI

Relato de um dia de atendimento de uma menina de 1 ano e sete meses, tendo como recorte o comportamento “recolhido” da menina.

Nani chega ao consultório com a mamãe. Chega desconfiada e, ao ser colocada no chão, já gruda os bracinhos ao redor de uma das pernas da mamãe. Digo “oi” de longe e não me oriento fisicamente na sua direção, mantenho meus impulsos na direção da mãe; sigo interagindo apenas com a mãe.

Entramos na sala de atendimento, que é grande, com bolas coloridas penduradas próximas ao teto, espelho grande que toma uma parede larga, espaldar, colchonetes, almofadas. Deixo uma cesta de brinquedos e bonecas pelo chão. Sentamos, eu e a mamãe, e Nani continua as voltas com a perna da mamãe. Noto que é delicada, corpo fino e macio, gestos e movimentos curtos e lentos.

Com todas as ofertas de atração, Nani não se arrisca no ambiente; também não chora, apenas permanece junto da mamãe. Nossos olhares se cruzam sem problemas. Até certo ponto, ela está disponível. Agora, só depende dos adultos da relação, que não atravessem o sinal.

A mãe parece pouco confortável com essa atitude da filha; esperava que ela explorasse o ambiente. Esse modo introvertido é motivo de comentários na família. Entendem que a menina precisa aprender a se relacionar com as pessoas e os ambientes. Essa pode ser uma das verdades. A outra verdade é que estão atropelando o tempo de desenvolvimento da menina.

A mãe também se orienta de modo delicado: fala baixo, poucas alterações de expressão facial, corpo com orientação para baixo.

Desde muito cedo, o corpo de uma pessoa acompanha e é acompanhado, a partir da forma corporal própria, do uso de si.

Estou desenvolvendo narrativas com o objetivo de favorecer um determinado olhar capaz de identificar esses corpos ambientes. Esta é a proposição destas crônicas de bebês: transmitir um conhecimento a respeito dos modos e das formas corporais que interagem em si.

Sentadas no chão, mamãe e a Nani e eu. Ofereço um brinquedo e ela aceita. Está sentada à frente da mãe com a frente do corpo virada para mim. Como sempre, inicio minha conversa com a criança mantendo determinada distância corporal.

Ela se envolve com um brinquedo e, sem que ela perceba, peço para a mãe se distanciar bem pouco da filha, se deslocar um pouco para trás. Nani percebe e engatinha até se juntar à mãe.
Ofereço um brinquedo do meu lugar e ela tem que sair de perto da mãe e buscar o brinquedo perto de mim. Espero. Ela topa. Peço que a mãe se afaste mais um pouco. Nani percebe e engatinha até a mãe.
Novamente mantenho minha posição e ela vem buscar o brinquedo. A mãe segue se afastando e Nani reconhece a ação como uma brincadeira passando a esperar o afastamento da mãe, em seguida, engatinhar até ela e se deslocar por um longo caminho para buscar o brinquedo e interagir comigo. Vamos interagindo neste vai e vem dela, na minha posição mantida e no deslocamento da mãe, pouco a pouco, para mais longe.

Que delícia acompanhar o desenvolvimento dos movimentos de uma menininha!

Vejo ações que se distanciam da desconfiança e se aproximam da exploração; ações/não ações que eram ativadas por uma necessidade de proteção e que se transformam em brincadeira; ações de uma criança que reage ao externo e que muda, agindo a partir do mundo interno, daquilo que move a si mesma para o externo.

A mãe acompanha a brincadeira, e logo não precisamos mais oferecer nada, Nani sai em busca daquilo pelo qual é atraída. Seus gestos são exploratórios e guardam suas características delicadas. Brinca comigo, brinca sozinha, brinca com a mãe. Pede coisas que não estão ao seu alcance, volta quando precisa para o lado da mamãe, interage comigo quando interessa.

A mãe, por sua vez, não “rejeita” mais a filha; desse modo ajuda na construção de certa independência. Crianças precisam de seu tempo para se afastar do cuidador do momento. Sim, é muito importante ajudar a criança construindo o caminho que favorece o afastamento. Quem caminha, porém, é a criança. Foi o que fizemos hoje!

Denise De Castro

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