Conflito Inerente

JOÃO 2

Vocês já conhecem o João; é o menininho de 1 ano e 7 meses que está incluído no grupo de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um menininho lindo que estamos acompanhando em seu caminho de desenvolvimento.

Estamos às voltas com questões comuns aos pais de qualquer criança. Qual a melhor forma e quais as ações necessárias para tratar de assuntos como: escola, cuidador doméstico, terapias, atividades extracurriculares, ausência/presença dos pais em casa? Como seguir acompanhando tantos assuntos importantes? Como gerenciar os conflitos que aparecem ao disparar as ações necessárias para dar conta dos assuntos importantes?

Para os pais do João pode parecer que essa urgência e a quantidade de assuntos são motivadas pela presença de um diagnóstico, pela presença de uma doença. Tento deixar certo que eles entendam que todo pai e toda mãe, cuidadosos, deparam-se com essa realidade conflitante diante dos acertos decisivos na vida de um filho. Quero mostrar aos pais do João que eles não estão sozinhos e que as famílias, em geral, se ocupam dessas tarefas, e sempre com determinada expectativa e agitação. Essa é uma das funções dos pais de bebês e crianças, conduzir e definir os ambientes nos quais seus filhos vão buscar o necessário para o próprio desenvolvimento, nos quais seus filhos vão agir e viver as ações dos outros, ambientes de influências para uma vida social.

O desenvolvimento de um indivíduo depende, em parte, de um suplemento ambiental regular. “Pegamos” no mundo externo do que precisamos para o mundo interno, processando esses elementos, transformando em mais vida. De modo simples, pegamos um alimento fora, comemos, processamos e geramos mais tecidos que garantem o processo da vida em nós. É assim que seguimos fazendo, de modo complexo, com as emoções, com os sentimentos e com as ações, seguimos pegando, processando e nos transformando na relação com o ambiente externo.

Nesses momentos, fico muito atenta para não tomar uma direção de forma apressada, desconsiderando os vários caminhos possíveis diante de um pai e de uma mãe, ambos, singulares. O João tem um pai e uma mãe ativos nas decisões referentes ao seu desenvolvimento. Tento acomodar o conflito inerente às duas pessoas com seus corpos, com suas histórias, com seus comportamentos, com suas emoções e com suas fantasias em relação ao desenvolvimento do filho. Nesse caso, tudo isso acompanhado de um diagnóstico que pode limitar, de modo drástico, o desenvolvimento e as conquistas do próprio filho.

Percebam: digo que fico atenta para não tomar uma direção mesmo antes de indicar esta direção. Sigo atenta para não estabelecer uma direção eu comigo mesma, permanecendo um tempo em meu estado de conflito. Pretendo deixar minha escuta acessível à realidade daquela família. Claro que tenho referências e modos para ensinar e conduzir, mas tento acalmar o meu mundo interno e acompanhar os corpos em seus limites, as emoções em suas confusões, as possibilidades e impossibilidades que são constituintes da vida real de qualquer pessoa. Vou processando as falas, acompanhando com perguntas e escuta, ativando as dúvidas.

Não é tarefa fácil desacelerar a instalação das verdades estando imersa em um ambiente de urgências.

Escolho discutir primeiro e com calma o tema Escola. João está em uma escola bilíngue e passo a escutar qual é o ambiente possível gerado por esta escola. Vamos reconhecendo a necessidade do desenvolvimento da linguagem e, nesse caso, as chances de tropeços frente ao aprendizado de 2 línguas distintas, o português e o inglês. João não está falando e apresenta um atraso em relação ao tempo de desenvolvimento verbal frequente em crianças da sua idade. Vamos reconhecendo que a escola não favorece as experiências descoladas dos resultados, e, nesse caso, talvez fosse mais importante gerar ambientes que privilegiem os aspectos motores e as ações livres, do que as atividades educativas que se aproximam da educação formal. Fica clara a priorização do ensino formal diante da realidade espacial, uma vez que a escola não oferece um espaço físico amplo para os corpos em ação.
Vamos desativando o sonho de ter um filho que domina o inglês e o português e dando lugar para a inteligência sinestésica do João. Ele apresenta um avanço em relação ao tempo de desenvolvimento motor frequente em crianças da sua idade.

Convido os pais para acompanhar a alegria do João nas brincadeiras e vou apresentando os saberes que são ampliados a partir das experiências concretas. Noções de espaço e tempo, acima e abaixo, dentro e fora, tridimensionalidade, lateralidade, pesado e leve. A possibilidade de desenvolver uma infinidade de saberes cognitivos experimentados e sedimentados a partir da brincadeira, das ações das várias partes de um corpo muito jovem e potente para ficar parado. Além disso, o João tem se mostrado uma criança que eu chamo de “muscular” em seu corpinho largo, denso e divertido, expressando, na forma, a necessidade de explorar, a partir de todos os 5 sentidos, os ambientes do qual faz parte.

O João vai mudar de escola!

Denise De Castro

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