O Intervalo entre o Quase Existente e o Existente.

JOÃO 1

Ao olhar e ativar, em mim, a percepção da presença de um bebê/criança, me pego emocionada com a noção de potência e fragilidade do “quase existente” que envolve a vida do bebê. Quase existente diante da fragilidade que cerca o bebê em seu corpo tão jovem dependente dos adultos que cuidam. Quase existente diante da potência de desenvolvimento, que é condição do bebê frente aos jogos de forças próprios de um corpo tão jovem e das intenções dos adultos cuidadores. Eu me emociono com a condição de quase existência que é condição de toda existência! Sinto que é nesse intervalo frágil entre o que existe e quase existe que quero interferir, que é nesse intervalo potente entre o que existe e quase existe que preciso definir contornos.

Também quero acompanhar e interferir nesse intervalo entre o que quase existe e o que não existe ainda. Este é o caso do papai e da mamãe do João, que chegam ao consultório carregando um fardo pesado chamado Autismo. O filho de 1 ano e 7 meses está incluído no grupo de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Os pais estão apreensivos, atentos, disponíveis. Vamos, juntos, sentir, pensar e atuar para descobrir como podemos ajudar João no desenvolvimento próprio. Pretendo partir da fronteira, daquilo que une, da zona que pertence simultaneamente aos domínios da potência de desenvolvimento e da dificuldade de desenvolvimento. Uma criança acompanhada de um diagnóstico, mas, também um corpo em plena potência de desenvolvimento e acompanhado de um diagnóstico que pode engessar OU indicar caminhos para o desenvolvimento dessa criança.

Vou conversando com os pais e sigo atenta, captando informações e me atualizando. “Escuto” as palavras, os gestos, as condições para a interação. Percebo que o pai se dirige pelo caminho da informação, lê e pesquisa tudo o que pode. Nesse sentido, está atropelando a criança com as informações e, apesar de todo o cuidado, sem saber, não está presente na relação com o filho real. A mãe, ao contrário, está desimplicada da doença, não acredita no severo risco de desenvolvimento que o filho está correndo, segue tentando amenizar os fatos e se desafetar. Desse modo, também sem consciência disso, se afasta da relação com o filho real. Pai e mãe estão se relacionando com duas crianças diferentes e nenhuma dessas crianças é o João em sua complexidade. De certo modo, João está sozinho.

Sigo, com o papai e a mamãe, pelo caminho no qual vamos encontrar e estabelecer o filho real. João entra na sala de atendimento e vai explorando tudo, não tem medo de nada, desconfiança de nada. Descola dos pais sem nenhum constrangimento. Será que isso é só bom? Já anda bem, noto que tem bom desenvolvimento motor, sobe, desce, corre, é um explorador. Tem um corpo forte, largo, firme, denso. Vou apostar nesta potência motora para me conectar com ele. É um menininho guerreiro!

Deixo que ele explore a sala e sigo acompanhando todos os seus movimentos. Percebo que ele repete o que chamo de sequência. Uma série de movimentos que acontecem no espaço, no tempo e no modo de forma semelhante e diferente. Semelhantes por serem os mesmos movimentos, diferentes por serem refeitos com mais presença de si, entre outras.

Não vejo a repetição de ações sempre como ações patológicas, e, sim, espero para entender melhor como ele se relaciona com a própria repetição. Entro na brincadeira e parto para fazer a sequência com ele. Ando igual, subo igual, desço igual, sigo o caminho. Ele gostou e já se ligou em mim, ótimo, começamos nosso diálogo. Eu estou na sala! Passo na frente dele e ele me segue agora. Repito a sequência e, sendo eu “o mestre” (Vocês conhecem a brincadeira siga o mestre?), acrescento uma nova posição e passagem na sequência. Alegria, ele me imita no novo! Estamos mesmo brincando juntos. Cada vez que acrescento uma novidade na sequência que aprendi com ele, lá está ele me acompanhando. Vejam, ele me vê!

As brincadeiras motoras, no momento, podem ser o canal transmissor do desenvolvimento desse menininho. Preciso ser visível para ele e, assim, ser capaz de ajudar no seu desenvolvimento. Não estou falando de exercícios específicos de equilíbrio, marcha, força. Estou falando de brincadeiras acompanhadas que, ora partem do repertório dele, ora partem do meu repertório; brincadeiras nas quais, ora sou estimulada, ora estimulo. Estou falando da minha presença como canal, como conexão, como olhar. Estou falando sobre a presença dele real, e não a ideal, a conhecida e a esperada. Sigo me deixando estimular e estimulando, sem essa condição, fica muito difícil ensinar e ser ensinado, de fato.

Mostro a presença do menininho lindo para os pais. Eles, os pais, me acompanham também, estamos apostando no grupo formado: eu, o papai, a mamãe e o João.

Logo vou conhecer a cuidadora diária; os pais trabalham e precisam da ajuda de outra pessoa na lida diária com o menininho. Sinto um ambiente favorável.

Bebês e Crianças que fazem parte do grupo com TEA não chegam facilmente ao consultório e, apesar dos progressos maravilhosos que estamos alcançando, os médicos que acompanham o João não incluem um tratamento como esse nas suas indicações. Loucura, não é?!

Denise De Castro

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